20.8.09

Todos os motivos para largar o barco sem rumo do jornalismo

Hoje, no Brasil, as faculdades de comunicação social que oferecem cursos com habilitação em jornalismo enfrentam o dilema: o que fazer com um curso cujo diploma é valorizado, mas não é obrigatório para se exercer a profissão?

Em um primeiro momento, é fácil raciocinar da seguinte forma: um profissional despreparado, que vai lidar com VIDAS HUMANAS (em caixa alta para não passar batido), não pode receber a responsabilidade – enorme, diga-se de passagem – de publicar notas, reportagens, notícias, enfim, de “noticiar fatos” sem o devido preparo conceitual e técnico.

Talvez o que os coordenadores desses cursos ainda não perceberam é que enquanto a grade curricular for estruturada para pensar simplesmente o lead, a pirâmide invertida e a “falsa ética” da profissão, realmente não há necessidade de graduar-se para exercer este ofício no país. Para que este diploma seja necessário, o curso deveria reestruturar-se em torno de diversos pontos, entre os quais: a responsabilidade de noticiar vidas humanas como personagens, a simplificação dos fatos e da realidade feita pelo jornalismo, o distanciamento entre a informação e o conhecimento e a falta de capacidade moderna de narrar.

Daqui, parto para uma reflexão do campo com um viés estritamente pessoal.

O jornalismo, feito através de telas de computadores, telefones, emails, releases e tudo o que impede a apuração in loco, de fato, das histórias que, uma vez notícia, podem mudar o curso de uma vida não me atrai.

Um parêntese: vida, aqui, não se refere àquela expressão vaga que temos em mente. Para tentar ser um pouco precisa, vida, para mim, refere-se a indivíduos autônomos, que, ao contrário do que parece, são mais do que um número de identidade: possuem face, história, valores e, principalmente, valor.

Qual é a valorização humana que o jornalismo, e a suposta ética dessa área, reconhece àquilo que é a sua matéria-prima e o seu suporte? Não, não me refiro ao papel, à tinta e à tecnologia. Qual o valor humano ponderado pelo jornalismo ao lidar e construir os personagens de suas narrativas?

Ingênuos somos nós, leitores, que cremos piamente que um nome na capa de um jornal é um indivíduo, de fato, como descrito. No máximo, aquela representação nos daria um personagem de tinta preta e papel de segunda mão.

Jornalismo é ficção. A armadilha realmente é bem feita: quem não abre as páginas dos jornais e ali tem a impressão de encontrar “o mundo real”? Afinal, até suja-se com a tinta das páginas ao folheá-las. Como o que é tátil pode ser falho e incongruente?

Entre tantas narrativas, não tenho dúvida: prefiro refletir, conhecer e conviver com aquelas que realmente propõem-se a uma aproximação irrestrita do outro, em todos os seus antagonismos, contradições e crescimentos. Esse ser estranho, sem face, atônito e anônimo que desponta nas páginas dos jornais, quem é?

Quem é esse ser que esconde as faces, abaixa a cabeça para aquilo que, às vezes, nem mesmo cometeu?

E de quem é esse imenso poder de expor vidas humanas, culpadas ou não e cujo julgamento absolutamente não nos cabe, às pedras da opinião pública – essa “opinião” que esconde indivíduos cujo telhado só não caiu porque o foco da imprensa ainda não se voltou a eles?

Agora, outra proposta: em um mundo em que a informação domina todas as mídias, qual a nossa capacidade de narrar? Narrar aquilo que a experiência transformou em sabedoria é uma tarefa excepcional em um mundo que checa, apura e publica informações a cada 24 horas.

Se para o leitor, no dia seguinte, quando o processo serial recomeça dentro das redações, o que foi noticiado será pó, esquecimento, puro produto da fugacidade do tempo e da imensidão de informações recolhidas por gatekeepers, para aqueles que estão “representados” nesse teatro diário a aparência é mais transparente.

E essa aparência cruel do jornalismo diário causa estragos, às vezes, irremediáveis.

O que eu quero dizer é que, em um mundo abarrotado de informações por todos os lados, o ser humano, o profissional que pergunta, escreve e noticia perde a capacidade – se um dia a teve – e o tempo necessário para aprender a narrar o mundo.

Tudo isso para concluir: antes mesmo de que eu entre no barco do jornalismo, eu decidi sair.

Eu não quero fazer parte de uma área profissional em que a ética e a responsabilidade são meros artifícios inescrupulosos para “garantir a credibilidade de um veículo de comunicação”.

Eu quero, não apenas como futura profissional, mas como ser humano, lidar diretamente com vidas humanas, com a responsabilidade de procurar entrar em contato com o outro, de deixar alguma marca de reflexão, de produção de conhecimento e não pensar cruelmente apenas na propagação de informação ao infinito.

Afinal, para propagar informação ao infinito basta um clique no Google para que em frações de milésimos de segundo obtenhamos todo o banco de dados de informações, muitas vezes irresponsáveis e inúteis, existente no mundo.

Não. Eu quero e vou refletir, produzir conhecimento e através de experiências humanas me enriquecer. Acolher em mim reflexões que transformarão informações em conhecimento e experiências em sabedoria. E mais: mesmo sem saber o grau de eficácia da transformação que proponho, vou à procura de contribuir para o arrebatamento de seres pensantes, capazes de se aprofundar no desbravamento da sensibilidade, da emoção, da percepção, da reflexão, enfim, de tudo o que nos tira do centro convexo dos nossos próprios egos.

Esse ficha que caiu, esse outro “clique”, muito diferente daquele da internet, por sorte, está amadurecendo todos os dias no curso de Letras que, mais uma vez para a minha fortuna, não lida com a gramática normativa, mas com a compreensão das diversidades humanas, da complexidade e da fragmentação moderna através do enfoque das ciências humanas. Mas tudo isso são outros quinhentos que um dia, talvez, terão espaço neste blog.

Por fim, a sedimentação da certeza de que o meu papel não será propor mudanças às falhas do campo, mas mudar diametralmente de horizonte.

8.8.09

Crescer

Hoje, eu, que sou suspeita pra falar do assunto, acho que crescer é mais ou menos isso: de repente, olhar para o pijama do sobrinho de 8 anos, usado pela irmã de 30 quando criança, e entender o que a frase em francês significa.

"Alors, on sort?"

4.4.09

Quase impossível



Se, na mesma foto, entre Bandeira, Chico, Tom e Vinícius estivesse enquadrado um copo de cerveja, seria uma situação irreal.

Ainda bem que os "ses" da vida não existem.

(Créditos da foto: eu acho que é do Evandro Teixeira. Créditos do post: Guilherme Assen.)

O desafio do simples

“Belo, belo, belo,

tenho tudo quanto quero”

(Manuel Bandeira, “Belo belo”)


Para o leitor desavisado esses 2 versos podem parecer a máxima da arrogância.

Lê-se, inadvertidamente, que se possui a infinidade de coisas que se pode querer.


Se observado mais de perto, a arrogância desaparece e dá espaço à leitura que se encaixa na poética (e na vida) banderiana: a humildade de se querer tão pouco e, por isso, ter-se tudo o que se deseja.


Um passo adiante, esse verso levanta outra questão. Qual é o nosso poder de escolha perante o mundo que nos impõe a necessidade (irreal e absurda) de tantas coisas?


Diante do desejo de tantos objetos, perde-se o sujeito. De tanto possuir-se, perde-se a possibilidade de escolha daquilo que faz parte da esfera pessoal, ou seja, aquilo que não se deteriora com o tempo e que permanece no mundo interior.


Impera a impessoalidade em um mundo que descarta com a mesma facilidade com que adquire.


Querem mais provas, em versos, não em divagações filosóficas, de que a poesia não precisa dar lições de moral e de que não precisa gritar a sua condição “social” para conter todas as questões com que o ser humano vê-se confrontado?


Basta encontrar em Bandeira, e em tantos outros, essa metáfora do simples.

18.8.08

Um Eco de razão

"Conta-se que muitos dos alunos matriculados na primeira turma de Umberto Eco na Università degli Studi di Bologna estavam atônitos; ele, o semioticista, aliás, um mito para tantos, naquela primeira aula já avisava a todos: 'Não se estuda só com os livros: frequentem os bares, os pórticos¹, as praças² e conversem entre vocês.'

Quem lhe deu ouvidos, na maior parte dos casos, depois também lhe deu razão. E então, aquele primeiro contato com a Universidade se tornou uma história lendária.
'O que eu queria dizer com aquela frase, à época daquelas aulas' diz Umberto Eco, hoje presidente da Escola Superior de Estudos Humanísticos, 'não era que a Università di Bologna é uma universidade melhor do que as outras, nem que os seus professores são superiores aos outros e tampouco que as bibliotecas são mais ou menos providas, mas, na verdade, eu partia do princípio que se aprende, sem dúvida, muitas coisas com os professores e dos livros, porém, além dessa esfera puramente acadêmica, se aprende muito com os amigos que se formam na classe, com os quais o relacionamento não é dominado por inseguranças e cujas conversas são menos formais.'"


¹ No contexto italiano, os pórticos seriam como os corredores das Universidades brasileiras, onde se pode conversar livremente com os colegas de classe sobre os mais variados assuntos.
² Na Itália, as praças são utilizadas pelos jovens adolescentes e universitários para a realização de pequenos shows, encontros de bate-papo e/ou ponto de encontro para outras atividades. No Brasil talvez isso exista apenas em pequenas cidades, que ainda não tiveram suas praças transformadas em "não-lugares" dentro da lógica da sociedade pós-moderna.

A tradução deste trecho do texto original foi feita livremente por mim.

14.8.08

Mais um fingidor

Nas ruas, em meio ao ruído da cidade ele toca seu saxofone. Com o olhar lânguido, quase em transe, observa a multidão que passa. Talvez seus ouvidos só possam prestar atenção à música que, a partir do ar de seus pulmões e do toque demorado e preciso de seus dedos, envolve o caminhar das pessoas em um compasso despropositado.

Sua música parece dissipar uma parte de sua melancolia. Ou talvez a melancolia esteja presente nos outros. E o músico, assim como o poeta, finge sentir a dor que deveras machuca naquilo que (imaterialmente) toca.

1.8.08

Acasos

"Giornalaio, giornale, giornaletto, giornaliero, giornalino, giornalismo, giornalista, giornalistico, giornalmastro, giornalmente, giornata, giornataccia, giornea."

Estava dizendo para um amigo que meu pai me presenteou com um dicionário de italiano/italiano e, quando o abri, me deparei com as palavras do parágrafo acima.

Não, principalmente agora eu não acredito em destino. Mas não deixa de ser legal, afinal, eu ainda não sabia o que era "giornalmastro".

22.7.08

A resposta

Entro no ônibus. Está quase vazio. Uma menina na frente, um jovem com seus 20 e poucos anos no meio e um senhor atrás. No fundo, onde existem aqueles bancos altos. Olho pela janela. Penso em como São Paulo pode me surpreender, como havia acontecido naquela manhã. É uma cidade feia, é suja. Todos têm razão.

Esses todos que me disseram pra não vir pra cá estão certos, mas só quem um dia morou aqui sabe o que só as ruas paulistanas têm. É preciso estar aqui pra se incomodar com a poluição, e, em contrapartida, sentir o corpo anestesiado de cansaço e dor ao final do dia pra lembrar-se daquele bom filme, daquela peça de teatro, daquele bar, daquele show, daquela conversa trocada na livraria com qualquer desconhecido, de todas as ruas percorridas a pé, daquela cena irreverente (ou tantas vezes desoladora) que só uma metrópole cosmopolita pode te oferecer.

Olho novamente para dentro do ônibus. De súbito, ele pára. Duas jovens entram. Uma delas senta-se no banco à minha frente, tem cabelos lisos, mas que aparentam ser quase sintéticos de tão repuxados artificialmente. Anda com dificuldade, quase arrastando um dos pés, muito inchado. Senti dor pelo pé machucado da moça. A outra, de pele morena e uma tatuagem enorme nas costas, sentou-se à sua frente. Começaram a conversar. A primeira, com o sotaque nordestino, começou a contar para a segunda como havia se machucado. Enquanto pintava as paredes de sua casa, caiu da escada, o pé ficou preso em um dos degraus. O estrago estava feito e tudo que ela conseguia fazer era rir, de desespero, da situação. Ela ria e a outra lhe dizia que a chefe de ambas deveria compreender que ela não poderia trabalhar por alguns dias. “É visível”, completou sem aparentar perceber a redundância descabida de sua frase.

A próxima parada é a minha. Desço e olho ao redor. Todos os rostos quase sem face passam ao meu lado rapidamente. Eu, já quase invisível pelo meu tamanho “extra P”, caminho no meio da multidão. Os protagonistas invisíveis da cidade encaminham-se para seus destinos. E eu continuo tentando aprender quais os momentos certos para parar e prestar atenção e outros, mais rápidos, onde meus passos me trazem até o conforto de casa novamente.

E o que essa cidade tem pra contar? Não sei. O que eu conheço é aquilo que, quase sem perceber, acaba sendo retido, aqui ou ali, pelos meus sentidos. No ônibus, na livraria, no bar, em qualquer um dos lugares que todas as cidades têm, mas, para mim só em São Paulo são assim: permeadas de uma serendipidade extra.

Eis a elucidação da pergunta: “Por que vale a pena morar em São Paulo?”